A arte de criar filhos – Limites, é importante colocá-los?

A importância da colocação de limites na criação de filhos, quase sempre questionada pelos pais pela característica, me parece, de ser pouco intuitiva e mal compreendida, é, no entanto, constantemente lembrada pelos profissionais do meio psiquiátrico e psicológico, em artigos, livros e periódicos científicos que tratam de desenvolvimento psicossocial.

Quando me colocam perguntas sobre o tema, em palestras ou mesmo em consultas, constato que de um modo geral, as pessoas consideram a atitude paterna e materna de “colocar limites”, no mínimo muito chata. Questionam se não se trata de uma atitude ultrapassada, “fora de moda”. Muitos têm grande dificuldade de compreender sua importância no processo educacional. Colocar limites, impediria um desenvolvimento criativo, já chegaram a me dizer.

Como disse ali em cima, o que é intuitivo para alguns pais, é que a “liberdade” é essencial. Colocar limites é vivenciado como uma restrição à liberdade da criança. Nada mais equivocado. Deixar a criança fazer tudo o que quiser não é absolutamente contribuir para sua liberdade interior, conceito muito mais complexo.

Deve-se pensar na questão do limite a ser colocado às crianças e adolescentes, como se ele funcionasse como uma espécie de “foco”, um recorte da realidade que você apresenta inicialmente, para facilitar a compreensão e preparar o caminho para focos maiores ou diferentes.

Pensado dessa maneira, o limite deixa de ser uma coisa ruim. Ele apenas circunscreve, temporariamente, determinado aspecto da realidade, digamos, total. Com esse aspecto em evidência, os pais estarão fornecendo um ponto de partida, um referencial, um modelo, que será inclusive questionado quando a criança ou o adolescente compreendê-lo e manejá-lo bem. Será mais fácil, então, continuar a construção individual da própria realidade psicológica e social. Sem esse modelo inicial, tal construção se torna muito difícil, pelo gigantismo do empreendimento. Para se construir um prédio de 40 andares, tem-se antes que construir o alicerce, o primeiro andar, o segundo, etc. O construtor teve que se focar na conntrução de cada andar antes de passar para o próximo.

Ocorreram então, limitações focais temporárias que possibilitaram o resultado final.

Limite, no sentido em que a palavra é usada para falar sobre desenvolvimento psicológico, é isso: uma imposição provisória, que, mais que permitir o desenvolvimento, é condição necessária para que ele ocorra. Embora, claro, nem sempre suficiente.

Exemplificando: não é que todos nós tivemos que deixar de brincar para ir para a escola e isso foi uma restrição à liberdade, uma imposição castradora, uma agressão, uma perda, um atentado aos prazeres de nossa infância. É que aprender a ler, naquele momento da vida, foi um foco importante, um alicerce que possibilitou outros desenvolvimentos no futuro.

Da mesma forma, não é que impedir a criança, o jovem adolescente de fumar maconha seja uma atitude ruim, decorrente dos adultos serem todos ruins e invejosos e com velhas idéias, que não se lembram mais da sua juventude, como uma vez um jovem comentou em um momento de grande ódio frente às imposições “da sociedade comandada por adultos”. É que, além de ser péssimo para a saúde, se o jovem fumar maconha, se se focar em drogas, vai deixar de focar em outras coisas, importantíssimas para seu futuro.

Esse jeito de se compreender a questão dos limites, ajuda a compreender a sua importância e, talvez, possa fazer diminuir a implicância que muitos pais têm com a palavra e com a idéia de dizer “não” a seus filhos.

Dr. José Roberto Campos de Oliveira

Médico pela Faculdade de Medicina da USP. Especialista em Psiquiatria pela AMB e ABP. Psicanalista pelo Inst. Sedes Sapientiae. Mestre em Ciências pela FMUSP.