A resistência ao tratamento

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Fenômeno bastante conhecido dos especialistas da área de Saúde Mental, a resistência é conceituada, na pscanálise, como tudo que contribui – no comportamento, nas atitudes e nas palavras do paciente – para dificultar o acesso deste ao seu inconsciente, acesso esse proporcionado paulatinamente pelo trabalho psicanalítico.

Do ponto de vista prático, a resistência pode aparecer, também, em qualquer outro tratamento ou sugestão de tratamento médico ou psicológico. Todos conhecemos a dificuldade que existe, em algumas pessoas, de aceitar que precisa de ajuda profissional.

Algumas ações, mesmo as mais corriqueiras, podem estar a serviço disso que estamos chamando de resistência dentro de um tratamento psicoterápico: faltar às sessões, atrasar muito, desconsiderar enfaticamente alguma coisa dita pelo terapeuta, negar veemente alguma conclusão por ele tirada sobre alguma coisa, apesar das evidências contrárias a essa negação, interrupção do tratamento pelo surgimento de problemas financeiros “inesperados”, mudança de prioridades de vida e muitas outras “atuações” que certamente vão surgir em algum momento porque sempre surgem em alguma ocasião em qualquer tratamento.

Pelo que foi dito, a resistência é fenômeno que ocorre com o paciente, mas, por extensão, podemos reconhecê-la também em atitudes e comportamentos de pessoas próximas ao mesmo, que deveriam estar preocupadas em ser aliados terapêuticos, mas que, muitas vezes, por diversos motivos, atrapalham mais do que ajudam.

Geralmente próximos ao paciente, familiares como o pai, a mãe, irmãos, cunhados, têm muitas vezes, ação incisiva na interrupção ou mesmo impedindo o início de alguma forma de tratamento e não apenas psicoterápico, diga-se. O tratamento proposto nem chega a começar por interferência deles. Com freqüência também atuam no sentido de desautorizar sugestões medicamentosas feitas por médicos especialistas que querem tratar com remédios alguns sintomas que estão muito proeminentes. Trazem, na ponta da língua, frases aparentemente muito sábias e decorrentes de grande conhecimento dos fatos da vida:

– Remédios são drogas, viciam, depois que você começa a tomá-los não consegue mais parar…

– Esse remédio é péssimo, lembra-se da fulana que passou muito mal quando o tomou?

– Você vai ficar parecendo um robô…

Desconsideram, enfim, o que o psiquiatra sugeriu, não discutem em detalhes com ele o porquê da sua escolha, o que norteou tal escolha, quais os efeitos colaterais possíveis, qual a gravidade e permanência de cada um, por quanto tempo o paciente vai precisar tomá-los, etc.

Competem com o médico em vez de se aliarem a ele.

Por que acontece isso? Não é um contra-senso? As pessoas próximas não deveriam querer que a pessoa melhorasse muito e logo? Por que, então, agem em sentido exatamente contrário?

A resposta não é uma só. Cada caso é um caso, já diz o aforismo médico. Muitas são as causas que fazem com que parentes próximos se recusem a tratar do parente amado.

Aqui é preciso muito cuidado, porém. Nem tudo são resistências.

Muitas vezes fatos concretos, externos ao tratamento em si, obrigam sua interrupção em determinado momento. Circunstâncias relacionadas com transferência de local de trabalho, por exemplo, ou necessidade premente de viagem para outro país, etc.

Não é disso que estou falando.

A resistência é um entrave que faz com que o paciente ou algum dos seus familiares se agarrem à doença e lutem contra sua cura.

Qualquer pessoa, mesmo não sendo especialista, mas que saiba dos detalhes do que está acontecendo, percebe imediatamente a ação do fenômeno a que estamos chamando resistência.

Esse, portanto, é um dos pontos a serem reconhecidos pelo terapeuta que estiver conduzindo o tratamento, o mais rapidamente possível, porque muitas vezes tais entraves são tão fortes que nem começar o tratamento que poderia libertá-lo da opressão da doença, o sujeito começa.

O não reconhecimento das resistências (no paciente e nos familiares) e de como combatê-las impede qualquer abordagem efetiva da doença.

Se isso estiver acontecendo com você ou com alguém que você gostaria de evitar que acontecesse, escreva-me ou entre em contato por telefone. Talvez eu possa ajudá-lo a compreender e resolver adequadamente a questão.

Dr. José Roberto Campos de Oliveira

Médico pela Faculdade de Medicina da USP. Especialista em Psiquiatria pela AMB e ABP. Psicanalista pelo Inst. Sedes Sapientiae. Mestre em Ciências pela FMUSP.

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