Camisinha

Camisinha

A fila do caixa no supermercado estava grande.

A menininha estava com a mãe.

Na frente delas, três pessoas-carrinho; atrás, quatro. De criança, naquela fila sem nada demais, só ela.

A musiqueta ao fundo, muito pior que um eventual silêncio, tediosa. Ninguém queria estar ali, todos meio emburrados, aguardando sua vez.

Menos a menininha.

Interessadíssima na gôndola de objetos ao lado do caixa. Escovas de dente, balas, pilhas, fio dental.

Cada coisa, ali, era uma nova descoberta. Dez anos, quase! Como o tempo passa, poderia comentar um velho tio… E tem gente que consegue manter a curiosidade intacta!

Pois é, dez anos, quase, da mais pura curiosidade. Pegava, olhava demoradamente, ficava pensativa, olhava meio com o rabo do olho para a mãe, desconfiada de que aquele prazer inesperado não era muito permitido não.

Na parte das balas, brilho no olhar. Via-se que ficava imaginando os sabores. Pegou o saquinho de balas azul. De longe não dava pra ver direito do que era. Bala de coco, talvez, me pareceu vislumbrar o coco, comi muitas delas na vida, fucei a memória lembrando detalhes da minha infância.

Enquanto eu viajava na memória, a menininha parou um pouco sua pesquisa. Olhou pra mãe. Conferiu a fila. Olhou prum lado, voltou-se pro outro, tudo certo, tudo bem, pegou outra bala. Tangerina, matei no ato. Cutucou, cheirou. Aquilo não tem cheiro de nada. Conheço. Não adianta ligar nem engatar um super-equalizator-diferenciator-prospectator de cheiros. O papel, plástico, sei lá, mantém a coisa interna incógnita. Tenho experiência nisso.

Passou pra próxima. Pegou uma camisinha com os dizeres: “sabor morango”. Virou ela pra lá, pra cá.
Epa.

Soletrou: “sabor morango”. Olhou de novo pra ela, apalpou, cheirou, olhou pra fila, olhou de novo, formou-se um enorme ponto de interrogação em cima da sua carinha. Não resolvia o enigma. Não agüentou. Chamou a mãe.

Mãe, que balona é essa?

A mãe, entediada, nem deu bola. A fila não andava. O tédio flertava com a irritação. O povinho nem se tocava. Todo mundo com aquela cara de meio de fila de supermercado.

Insistiu.

Mãe?

Puxou a saia dela, a mãe, entediadíssima:

– Mãe, que balona é essa?

A mãe pegou com má vontade o pacotinho.

Claro que não enrubesceu. Já passara da fase. Porém, estampou na cara uma grande lanterna, um facho de atenção, uma tocha de alerta, um misto de preocupação e outra coisa, talvez, olhou para o lado certo. Me viu. Sinceramente não sei com que cara eu estava, mas acho que dei alguma bandeira porque ela olhou pro outro lado meio brava.

A senhora da frente a fitava com um certo ar de reprovação. Eu não havia percebido que a mulher da frente percebera. Pensei que era dono da jogada. Mas não.

Atrapalhou-se toda. Rodou prum lado, pro outro. Cochichou pra filha. Esta respondeu:

Como assim? Como assim? Não é bala? Tá escrito aqui: “sabor morango”, soletrou vagarosamente.

A menininha falou meio alto, de modo que chamou a atenção de outros velociraptores entediados da fila que começaram a prestar atenção.

Somar dois mais dois é fácil. Pois. Existem outras coisas que também são fáceis nesta vida. De modo que, de repente, a fila inteira percebeu o que se passava.

Olhavam, divertidos, a aflição da mãe.

A moça do caixa esperava. Sabe-se lá o quê. Olhava fixamente para alguém do outro lado. Moça do caixa tem essas manias. Empacada irremediavelmente, a fila.

Menos a menininha.

Preservativo? O que é isso? O que-que-é-isso?

Todo mundo gargalhava. Prá dentro, mas gargalhava.

A moça avermelhou. Risos. Mesmo assim, conseguiu, ainda, uma derradeira tentativa de explicação.

Cochicho vai, cochicho vem:

Evitar filho… “sabor morango”, mãe?

Dr. José Roberto Campos de Oliveira

Médico pela Faculdade de Medicina da USP. Especialista em Psiquiatria pela AMB e ABP. Psicanalista pelo Inst. Sedes Sapientiae. Mestre em Ciências pela FMUSP.