Covardia

Em uma conversa sobre política com um amigo bem mais jovem, este citou uma frase de um cantor de quem gosta muito, “vocalista do Angra, Edu Falaschi”, sobre “exigir com rigidez e veemência que o Brasil tome outro rumo”.

Desafiou-me a comentar a frase, coisa que faço neste artigo.

Através de um pequeno exemplo, de uma atividade psiquiátrica corriqueira, uma simples consulta ambulatorial, posso exemplificar o que penso a respeito dessa questão importantíssima, complexa, mista, de cidadania e ao mesmo tempo de individualidade, de exercício de atividade produtiva, de bem-estar psíquico e físico, de convivência, de atuação política, questão essa que tem a ver com a frase lembrada por aquele amigo.

O exemplo é o seguinte: atendi outro dia, médico psiquiatra que sou, uma paciente que veio de uma cidade próxima a São Paulo, encaminhada por seu médico clínico geral, para avaliação de sérios sintomas de depressão e estresse. Sua queixa era de não conseguir mais dormir direito à noite, não conseguir sentir prazer com seu trabalho, andar triste, desanimada e chorando muito quase todo dia. Tal estado de espírito se estendia a todas as outras atividades de sua vida. Não conseguia mais cuidar da casa, dos filhos, do marido. Veio para se tratar dessa “depressão”, encaminhada pelo colega clínico geral, a fim de se consultar com um “especialista em estresse”.

Questionada sobre o que estava causando isso na sua opinião, disse-me que, como professora, tinha que aguentar, sem conseguir fazer nada, seus alunos adolescentes, com atitudes delinquentes dentro da sala de aula. Referiu sentir-se, hoje em dia, absolutamente impotente. Não tem mais conseguido exercer o que sempre considerou o ofício de sua vida. Alguns dos meninos, sim, “meninos ainda – apesar de quase rapazes” – entram com estiletes, facas, até revólver nas salas de aula; ameaçam os professores e outros colegas com quem implicam e ninguém, absolutamente ninguém, toma alguma atitude concreta para contê-los. Alunos de 12, 13 anos. Ela se queixou diversas vezes à diretora da escola, conversou com outros colegas. Conseguiu apenas promessas vagas de que a diretora iria chamar os pais dos garotos e conversar com eles na tentativa de mudar esse estado de coisas, e só.

Sentia-se com muito medo e desanimada com seu trabalho.

Já sabia do que necessitava. Queria ser acolhida como “doente”, receber tratamento com calmantes, passar um tempo em repouso, um “auxílio-doença” e, se possível, depois, conseguir mudança de função dentro do seu trabalho, já que é funcionária pública concursada e não quer e nem pode ser despedida e nem abandonar o emprego de repente. Gostaria, como alternativa, de trabalhar como auxiliar, na bibilioteca da escola. Comentou que tal situação provocou um verdadeiro impasse em sua vida. Não tem como prosseguir, não tem como melhorar, não pode exercer com dignidade a profissão que escolheu, sente-se tolhida pela sociedade, a própria sociedade a quem deveria prestar seus serviços e de quem deveria receber os honorários e as eventuais comendas e condecorações pelos bons serviços prestados. Vem se sentindo, “para terminar”, um verdadeiro “lixo”, a escória dessa mesma sociedade que a emprega.

Quis saber, então, como eu poderia ajudá-la e se eu concordava com o “tratamento” que sugeriu.

Comecei lhe dizendo que entendia perfeitamente o que se passava com ela e que lhe emprestava minha total solidariedade. Essa brutalidade precisa acabar. Essa impunidade precisa acabar. Disse-lhe, porém, que não concordava com o que ela pensava com relação ao “diagnóstico” da situação, à sua “doença”. Não acho que você está doente, disse-lhe. Acho que quem está doente é a sociedade. São esses meninos. São os pais deles. É a sua Diretora. São seus outros colegas. Somos todos, enfim, que nos acovardarmos frente a essa situação. Precisamos deixar disso.

Deixar de nos acovardar em cascata.

Deixar de pensar em ganho ou perda imediatos.

Precisamos deixar de temer sofrer alguma retaliação ou perda imediata se dissermos e fizermos o que julgamos ser bom para esta ou aquela situação. Você precisa, sempre, se lembrar que você é uma professora, disse-lhe. Que você é mestra, repeti, que você tem, defende, cuida, de uma das profissões mais nobres da vida. Você não pode se esquecer disso. Você precisa brigar por aquilo em que acredita. Brigar por essa idéia, brigar pelo que escolheu, brigar pela integridade dela, cuidar dela como quem cuida, como quem é guardiã de alguma coisa preciosa, crucial, de total relevância. Brigar como quem briga pela própria vida. É preciso que você continue, disse-lhe, brigando pelo direito que você tem à liberdade de escolha, à liberdade de profissão, à vida enfim. Pelo direito de continuar indo à escola, pelo direito de ensinar, pelo direito de ser gente.

Continuei nessa mesma linha de raciocínio, até que, aparentemente, consegui inspirar nela a volta às suas raízes, ao seu primitivo desejo.

Prescrevi-lhe, sim, ao final da consulta, um calmante, leve, para tomar à noite, a fim de ficar menos ansiosa nesses primeiros dias e poder pensar com calma e clareza sobre tudo o que está necessitando.

Queria explicar, agora, porque frisei o “aparentemente”, ali em cima.

Sou psiquiatra há muitos anos. Geralmente um tratamento, um acompanhamento psiquiátrico às vezes de anos, começa com uma consulta semelhante a essa que descrevi. O “diagnóstico” do que se passa com determinada pessoa, vai sendo melhor elaborado, vai sendo mais detalhado, vai se tornando mais sofisticado com o tempo, apenas. Depende dos retornos do paciente. Depende, também, sempre, de como ele encarou, de como vivenciou, de como metabolizou, de como “aproveitou” minhas colocações. A personalidade total da pessoa influi nessas opiniões que vão se modelando aos poucos se tornando mais claras para ambos, tanto para o terapeuta como para o paciente.

Pois bem, digo-lhes agora: nesse primeiro momento, nunca se sabe como a pessoa vai voltar. Eu, pelo menos, não sei como essa jovem professora vai voltar à próxima consulta. Não sei, nem mesmo se vai voltar. Não sei o impacto que minha fala teve sobre ela. Não sei se a ajudou. Talvez sim, talvez não. Só ela vai poder me dizer. Ela vai precisar refletir sobre o que conversamos e sobre sua vida de forma mais aprofundada. E continuaremos a conversar quando voltar. Vou querer saber como está se sentindo, se o que eu lhe disse foi de importância ou se a ajudou em alguma coisa, se o remédio, paliativo, que lhe prescrevi, foi de alguma utilidade. E o tratamento continuará. Até quando? Até quando ela achar que eu posso ajudá-la.

Essa é a minha função.

Exercendo-a com lisura, com honestidade, seguindo minha intuição, meu conhecimento objetivo sobre minha especialidade e meu desejo inicial, estarei cumprindo minha função, estarei exercendo para mim e para o outro a política de “exigir com rigidez e veemência que o Brasil tome outro rumo”.

Desta vez, não me acovardei. Não prescrevi a ela o mais fácil, o que ela pensava que seria o melhor para ela. Não concordei com a cascata de submissão, de covardia, que se instaura entre as pessoas, atitude comum que testemunhamos corriqueiramente nas várias atividades sócio-profissionais.

Com essa simples atitude, coerente para mim, coerente com o que penso e sinto, cumpri minha obrigação, já que considero essa uma atitude terapêutica, propiciadora de insight e tranqüilização efetiva.

Não é sempre que isso acontece, digo-lhes, para terminar. Minha experiência de vida diz que somos todos seres meio acovardados, mais vezes do que gostaríamos ou que seria desejável. A vida é muito complexa.

Quando conseguimos não nos acovardar, quando conseguimos manter a coerência com o que pensamos, intuimos e desejamos no nosso relacionamento com o social, mesmo que as circustâncias do momento aparentemente sejam contra sua realização, certamente estamos exercendo nosso melhor.

Dr. José Roberto Campos de Oliveira

Médico pela Faculdade de Medicina da USP. Especialista em Psiquiatria pela AMB e ABP. Psicanalista pelo Inst. Sedes Sapientiae. Mestre em Ciências pela FMUSP.