Dogville

Trata-se de um filme que, como toda grande obra de arte, admite muitas formas de compreensão e interpretação.

Uma análise sociológica, por exemplo, já feita por vários autores, considerando ângulos diferentes desse mesmo foco (sociológico), permitiria dizer que se trata de uma crítica nem tão velada assim, aos EUA, no sentido de retratar a forma intolerante como praticam seu poder e liderança sobre o resto do mundo.

Diversas considerações e ilações filosóficas e psicológicas podem ser efetuadas. O que efetivamente importa é que é um filme acachapante, que merece ser estudado em detalhes.

Existe um making off sobre a forma como seu diretor conduziu o processo de filmagem, alugando um galpão nos arredores da cidade e mantendo o grupo de atores em trailers, meio confinados, objetivando colocar em prática a sua visão sobre “interpretação”: não “representar o personagem”, mas, efetivamente, tornar-se, “ser” o personagem. Tanto que a Nicole Kidman, após a cena do “estupro”, ficou mal mesmo, a ponto de ter uma crise de choro intensa. Construiram uma espécie de “sala de confissão” no set, algo parecido com aquela, já conhecida dos brasileiros, que existe nos reality shows como o Big Brother por exemplo. Nessa sala de “confissões”, existe um registro do depoimento da Nicole Kidman dizendo que ficou mal, que passou a nutrir sentimentos muito negativos frente ao diretor, que nunca mais trabalharia com ele.

Muito interessantes as soluções técnicas cinematográficas conseguidas, os movimentos de câmera estranhos, o cenário absolutamente clean, ou ainda melhor dizendo, ausência de cenários, as inúmeras citações visuais e sonoras, a genialidade de fazer uma espécie de teatro filmado, com um clima conceitual, Brechtiano.

Finalmente, o conteúdo propriamente dito. Qual seu tema? Sobre o que é o filme?

Deixando de lado as interpretações sociológicas, eu diria que o filme é uma metáfora sobre o surgimento e desenvolvimento de todos os conteúdos emocionais e intelectuais desde o seu começo até sua degradação, nas pessoas que, fazem parte daquele lugarejo, situado nas Montanhas Rochosas dos EUA mas que poderia estar posicionado em qualquer lugar do mundo, em função de mudanças na forma dos seus relacionamentos. O filme versa sobre quais são esses sentimentos e idéias, tenta explicar sua origem e mostra seu desenvolvimento.

Freqüentam aquele esboço social, aquela alegoria sobre a sociedade em geral, um grupo de 15 pessoas que, de repente em suas vidas, veêm-se na contingência de acolher alguém estranho, uma mulher lindíssima, que chegou ao lugar fugindo de algo desconhecido e atemorizante para eles. Acabam aceitando conviver com ela por duas semanas, em uma votação difícil porém unânime. A partir daí, todos os valores e comportamentos de adaptação da comunidade são colocados em cheque.

A situação lembrou-me muito, em várias ocasiões, os textos de um grande psicanalista inglês, um dos maiores pensadores da psicanálise, Bion, que procedeu a detalhadas análises exatamente sobre isso: grupos. As motivações individuais, diga-se, a somatória pulsional individual que se estrutura no convívio entre pessoas, a resultante final dessa somatória e o tipo de clima que vai se estabelecendo com o progresso desse convívio e com o entrelaçamento das resultantes pulsionais dos diversos membros do grupo. Os diferente papéis que as pessoas acabam representando, as angústias, os desejos, os medos, a agressividade, complementares às vezes, a formação de “panelas” (times), a cumplicidade, o comprometimento e às vezes a falência total do comportamento ético.

No filme, como freqüentemente nos grupos humanos, existe até uma inversão total de valores, a catarse do final onde a “justiça”, a filosofia ideológica enfim, o pragmatismo justiceiro, é praticado exatamente pelos gangsteres e não pelos responsáveis pela aplicação da justiça.

As propostas ideológico-filosóficas “teóricas”, feitas sobre as desejáveis metas da comunidade, por um dos personagens principais, uma espécie de líder, meio que incomodava aquele pessoal. É ele que introduz a estrangeira em Dogville. Costumava fazer reuniões tentando convencer as pessoas de assuntos que considerava importantes, em função de sua ideologia filosófico-existencial.

Com a entrada em cena da estranha, passou a funcionar como uma espécie de observador do grupo. Ficou totalmente passivo, aceitando o desenrolar dos acontecimentos, não assumindo nada, nem seu amor pela estranha por causa de seu desejo meio vago, de encontrar seu tema para se tornar, enfim, escritor. A falta de saber como manejar a agressividade crescente dos outros, também como na vida, freqüentemente, deixa claro essa falta de “liderança pragmática” se é que podemos chamá-la assim, o oposto do que acontece com um líder pragmático com um objetivo, Moisés por exemplo, que sabe exatamente como e para onde conduzir seu povo.

Aliás, interessante como outra metáfora, que o cachorro do filme (dog of the ville ou o vilarejo do cachorro), se chama exatamente Moisés. Observe-se que ele é simbolizado apenas, não tem existência concreta. O lugar em que deveria estar é riscado no chão, como naqueles filmes policiais cujo risco no chão mostra onde se encontrava o cadáver. Quer dizer, a metáfora seria que o líder, no sentido da liderança pragmática praticada por Moisés, não existia na comunidade, pois o “lider” de Dogville, que por sinal nem foi eleito, é aceito, provisoriamente, muito menos pelas suas próprias qualidades que pelas necessidades dos “liderados”, exatamente como já constatara o grande Bion sobre os líderes emergentes nos grupos humanos.

As pessoas daquela comunidade, na verdade nem sentiam necessidade afetiva nem cognitiva nenhuma em um primeiro momento, muito menos viam vantagem em relacionamentos interpessoais, daí sua falta de motivação às reuniões. As pessoas demoram um pouco para estruturar seus desejos quando colocadas em um grupo, fenômeno muito bem observado e analisado pelo citado Bion.

O personagem que “organizava” as reuniões “democráticas”, era tão abúlico e sem pragmatismo que faz até com que se pense que poderia ser um representante da doença mental muitas vezes não constatada pela população, conhecida como esquizofrenia simples. Mesmo assim, exatamente como inúmeros mendigos da cidade grande, que se excluem do convívio social, que não tem proposta nenhuma para nada, muito menos propostas sociais, que não fazem absolutamente nada, têm apenas vagas idéias que nunca se concretizam, perturbava todo mundo com propostas pseudo-filosóficas que ninguém achava interessantes. E, no entanto, iam às reuniões. Todos precisamos de líderes, mesmo quando não queremos nada ou não temos objetivos. Parece se tratar de uma característica do ser humano.

Enfim, como toda grande obra de arte, repito, admite muitas formas de compreensão e interpretação. A maneira como a Nicole Kidman arrasta aquele peso acorrentado ao seu pescoço, sua “resignação” com os acontecimentos, faz lembrar também Cristo carregando sua cruz. Quer dizer, existe aí também outra espécie de citação, no caso, de um fato religioso, porém com desfecho totalmente diferente. Também, como no proporcionado pela Paixão de Cristo, humano, excessivamente humano.

Dr. José Roberto Campos de Oliveira

Médico pela Faculdade de Medicina da USP. Especialista em Psiquiatria pela AMB e ABP. Psicanalista pelo Inst. Sedes Sapientiae. Mestre em Ciências pela FMUSP.