Ele Não Está Tão A Fim De Você

Dois filmes sobre o onipresente desejo de compreensão do universo amoroso entre homens e mulheres, ambientados em locais totalmente diferentes no tempo e no espaço.

Interessante como os roteiristas dos filmes atuais (ambos filmes de 2008) têm trabalhado bem no sentido de prover coerência e explicabilidade aos relacionamentos humanos que são incoerentes e inexplicáveis por definição.

O amor e sua irmã mais incisiva e agressiva, a paixão, que não têm explicação, parecem tê-la quando assistimos esses filmes.

O dito italiano: “Si non è vero è bene trovato”, cabe aqui perfeitamente.

Gostamos de histórias compreensíveis, com começo meio e fim.

Precisamos delas. Têm um efeito tranqüilizante, ficamos com a sensação de que controlamos as emoções primitivas de amor, no caso, mas também do ódio, e não que somos controlados por elas – lancinantemente atravessados – seres humanos que somos, absolutamente entregues aos desvarios dessas impiedosas algozes.

Olhem que bonitinho:

O primeiro filme chama-se “Ele não está tão a fim de você” (He’s Just not that into you) – EUA/2008, direção Ken Kwapis, com um elenco cheio de mulheres muito bonitas, cujas histórias se entrelaçam de diversas maneiras, carpintaria literária da indústria do cinema, cheia de nuances, feita por roteiristas ágeis que conseguem dar um sentido coerente e interessante a todas as histórias.

Sinopses completas com os nomes das atrizes e outras questões técnicas, facilmente localizáveis no Google.

Todas as moças têm uma série de problemas com homens.

Uma delas, a Gigi, procura tenazmente um sujeito para ter um relacionamento sério.

Vive levando bolo dos cafajestes de plantão, até que acha, meio sem esperar, um rapaz que vai ser seu amor eterno (a fantasia dela a respeito do amor).

O relacionamento começa com uma amizade, aconselhamentos sobre “sinais do comportamento masculino que revelam que ele não está tão a fim de você como faz pensar” dele a ela, vai se adensando, até se transformar, no final, num caso amoroso bem sucedido.

Claro que o sujeito erra tudo, o tal feitiço que ele tenta ensinar se volta contra o feiticeiro – que ele pensa que é – enredado pela própria mágica.

Aí está a graça da história, a constatação de que ninguém consegue dar conta de explicar tudo.

Também precisamos disso. Da sensação de que ninguém consegue ou conseguirá, explicar, nada do que acontece com a gente.

Contradição? Sim. Então, se existe contradição, existe conflito. E qual é ele afinal?

Simples: Precisamos que nos dêem dicas de como entender os outros. Mas, no fundo, não queremos entender nem ser entendidos, queremos que todas nossas atitudes sejam incompreensíveis, não queremos que exista sabichão nenhum, ditador indesejável nenhum, que tenha algum poder sobre nós. Queremos, …. mas não queremos.

Certo. Certo?

Voltando ao filme, os dois terminam juntos, claro. A Gigi encontrou seu amado.

Erraram todos os que pensavam que sabiam alguma coisa. Vence, aqui, a imprevisibilidade que almejávamos.

Os outros casos também se resolvem “bem”, pode-se dizer que o filme explora diversas formas de resoluções amorosas bem sucedidas, dentro das suas respectivas dimensões.

Existem soluções para muitos gostos e muitas expectativas.

Sempre se sai contente, de filmes desse tipo, comédias levinhas bem arquitetadas.

As gentes saem se perguntando qual estereótipo amoroso faltou ser incluído.

Tudo muito inteligente.

Somos todos roteiristas amadores com pretensões a acrescentar ao roteiro original, novas contribuições, novas histórias e novas compreensões sobre a vida.

Mas, não é para isso mesmo que serve a arte?

Para nos fazer pensar e nos fazer classificar e priorizar melhor os fatos da vida? Para desenvolver nossa inteligência?

Pois.

O outro filme, “Appaloosa – uma cidade sem Lei”, comentarei em outro artigo com esse nome.

Dr. José Roberto Campos de Oliveira

Médico pela Faculdade de Medicina da USP. Especialista em Psiquiatria pela AMB e ABP. Psicanalista pelo Inst. Sedes Sapientiae. Mestre em Ciências pela FMUSP.