Mal-entendidos

Mal-entendidos

Tem gente que reclama a vida inteira de ter tido pais “muito severos”, repressores em excesso.

Anos de análise são necessários para que reinventem esses pais, que os perdoem em suas limitações.

Como essa última frase que escrevi deverá ser entendida? Em outras palavras, como garantir que o que eu quis dizer vai ser entendido da forma como imaginei que deveria sê-lo?

Essa garantia não existe ou, pelo menos, não é coisa de amadores. Nâo sabemos, na grande maioria das vezes como entenderam o que quisemos comunicar. Grandes escritores têm o domínio dessa técnica, pessoas comuns, não. Os escritores brincam – às vezes – exatamente com a dubiedade de sentimentos que determinados textos podem provocar. Veja-se, por exemplo, Dom Casmurro de Machado de Assis, como o autor trabalha de forma genial com a ambivalência da linguagem que decorre da ambiguidade afetiva que existe dentro da gente.

Por isso considero a frase acima um bom exemplo do fato de que muitas vezes a gente fala sobre uma coisa e é possível que entendam outra.

Neste caso por exemplo, pode parecer que estou dizendo que o analisando ficou falando dos pais durante toda a análise, com o objetivo de entendê-los e pôde, por fim, reconstruí-los.

Mas não foi isso que eu quis dizer. O que quis dizer é que a remodelação do que pensava sobre os pais, uma espécie de reinvenção das personalidades, das pessoas dos pais, surge como um ganho secundário da análise que o paciente fez sobre diversos outros temas de sua vida e que o levou a reformulações mais amplas, inclusive sobre os pais. Na verdade, o analisando, qualquer analisando, efetua muitas outras reformulações sobre inúmeros outros aspectos e pessoas da sua vida e é exatamente por isso que a análise é um processo demorado.

Considero que mal-entendidos – que podem se originar de processos semelhantes a esse que descrevi – fazem parte dos fatores que dificultam as pessoas a procurar ajuda psicológica.

O leigo desinformado pode pensar que os benefícios que uma psicanálise pode fornecer, por exemplo, as melhoras psicológicas que ele vai usufruir, só aparecem depois de muito tempo. Não é verdade isso. Gosto muito de comparar o aproveitamento que os analisandos têm com análise, com o aproveitamento que aulas sobre uma língua estrangeira ou que o aprendizado de um instrumento musical fornece. A pessoa vai, rapidamente, aprendendo coisas, obtendo prazer e sucesso no aprendizado. O que acontece é que para algumas coisas é necessário mais tempo. Por exemplo, se você é um aprendiz de piano, rapidamente vai tocar muitas músicas. Mas, se quiser tocar o Concerto para piano nº 3 de Rachmaninov, vai precisar de muitos anos de estudo, pela complexidade do aprendizado do concerto. Com análise é mais ou menos assim que funciona.

O que é importante saber, é que através de algum processo psicoterapêutico é possível conhecer melhor seus próprios desejos e articulá-los de forma mais adequada, efetuando mudanças – para melhor – em uma série de atitudes que estavam provocando altos níveis de descontentamento existencial.

Dr. José Roberto Campos de Oliveira

Médico pela Faculdade de Medicina da USP. Especialista em Psiquiatria pela AMB e ABP. Psicanalista pelo Inst. Sedes Sapientiae. Mestre em Ciências pela FMUSP.