O Celular

O Celular

Puxei a folha sem querer.

Junto com ela veio o celular. Veio não. Foi-se. Para o chão.

Percebi imediatamente, aquela sensação, que vem antes da percepção ou do julgamento, que a coisa teria consequências trágicas. Mas já não deu mais tempo de consertar a queda. Só olhei.

Na impossibilidade de consertá-la, passei a concertá-la, se é possível definir assim o ato de eu ficar como que conduzindo, regendo com a mão, com ar alucinado, a queda do referido.

O bicho, por sinal, músico rebelde, desinteressado da minha condução, seguiu seu caminho originalmente pretendido, espatifou-se no chão com tudo.

Quebrou-se em três, escorregando pelo chão.

No ato mesmo da quebra, contei sem querer contar, horrorizado, o esquartejamento do celular num pedaço grande e mais dois pequenos. Um foi parar lá longe. O outro quase no meu pé, o grandão, o manda-chuva, o que tem a câmera, pensei. O outro, um pouco prá frente, rodou de maneira esquisita e parou. Gordinho. Como assim?

Aguardei, paralisado. Alguma coisa aconteceria, alguma consequência, sei lá, uma explosão, talvez? “Tipo uma granada”? – Diria, qualquer adolescente de plantão, em 2009.

Três intensos segundos.

Os três pedaços continuaram onde estavam.

Certamente eu havia – com o gesto de puxar o papel – desencadeado um cataclismo qualquer. Isso era ponto pacífico. Agora, qual? Onde?

Nada.

Procurei, com o olhar, cada pedaço. Continuavam, todos, lá, nos seus lugares. Um, perto do meu pé, outro ali, o outro lá. O magrinho mais longe. Como sempre. Pensei com uma certa inveja que os magros, sempre os magros, vão mais longe…

Agora, que o magrinho, esse magrinho, fez um vôo bonito, meio que caiu sabendo para onde ia, aterrissou no chão e deslizou, parecendo um skatista sabido, foi, pensei retroativamente, me lembrando de como o vi quando caiu.

Meu celular é um verdadeiro animal predador cibernético. Tem milhares de funções, posso ir à lua, se quiser, faço, nele, todos os cálculos necessários, penso, com superioridade, em como a NASA tinha aqueles prédios imensos para conter dados que carrego hoje no bolso.

E continuo podendo carregá-los, mesmo depois da “explosão”. É que na verdade, não aconteceu nada, prezados.

O celular só abriu com a queda. Desconjuntou-se. No sentido exato da palavra.

A bateria, toda cheia, orgulhosa, ficou no meio do caminho esperando o resgate amigo. Que chegou muito mais rápido do que ela pensava.

O pedaço pequeno, a parte traseira que tampa o compartimento da bateria, fininho, fininho, magrinho que nem ele só – Raios! Sempre tem que ter alguém magrinho nesses acontecimentos catastróficos? – é ótimo, gente fina, cheio de nuances que não se quebram facilmente, se encaixam com o resto da sua turma de uma forma tão emocionante, parece que nasceram um para o outro, que me deu até vontade de chorar de tão emocionado fiquei.

A parte grandona, a que tem a câmera foi recolhida primeiro. Tudo certo. Ninguém se quebrou. Todos inteiros: o retângulo com o vidrinho, o tecladinho, o visor, a bola do meio.

Tudo inteiro e certo.

Encaixei um no outro, o outro no terceiro e pronto.

Sim. Não acredito! Derrubei meu celular e todos sobrevivemos. Ele da quebra, eu do susto, sem enfartar.

Devia haver um aviso, nessas coisas, para irremediáveis, irrecuperáveis velhos: “não se preocupe tanto com quedas do seu celular. Ele é praticamente inquebrável!”. Sim, porque estaremos cada vez mais carcomidos daqui prá frente. E eles, cada vez mais ágeis. Vivam os tempos modernos! Aleluia, irmão!

Dr. José Roberto Campos de Oliveira

Médico pela Faculdade de Medicina da USP. Especialista em Psiquiatria pela AMB e ABP. Psicanalista pelo Inst. Sedes Sapientiae. Mestre em Ciências pela FMUSP.