O vôo da borboleta

O vôo da borboleta

Um alto executivo, que traçou uma carreira brilhante em uma multinacional, queixa-se na sessão: puxa, logo eu, um cara que sempre soube o que fazer, me dei bem na vida, cheguei onde estou por causa dessa minha característica, por andar de forma reta, perseguir meus objetivos com agressividade, sem trégua, puxa, logo eu, fanático por trabalho, que sempre consegui tudo o que quis, procurei dar o melhor para minha família, melhores escolas, médicos, viagens… eu não merecia isso, ter que aguentar um filho assim, sem objetivo na vida, que parece que não liga para nada, só pensa em sair com os amigos, namorar, curtir, ficar por aí borboleteando… Para então de falar, a voz embargada de aflição.

Dizem por aí que o psicanalista não fala nada, não reage, só ouve. Claro que não é assim, isso é uma brincadeira, faz parte do folclore maledicente sobre o ofício psicanalítico.

O que acontece, posso demonstrar com este exemplo, um pedacinho de uma sessão, é que não há o que dizer em determinados momentos. Melhor ainda: não se encontra o que dizer, rapidamente. Por não haver o que dizer, fica-se em silêncio, talvez um misto de solidariedade ao sofrimento alheio, com uma leve sensação de incompetência por não poder acrescentar nada que alivie o que o outro está sentindo.

Isso não é sinônimo de desinteresse ou que o analista não compreendeu ou não esteja mobilizado racionalmente e também afetivamente pelo que ouviu.

Com efeito, nesse caso específico, eu já estava visualizando, imaginando, matutando, sobre o que acabara de ouvir. Pensei: que problemaço! De que maneira dizer a uma borboleta que ela está voando errado? Que o certo é voar como o falcão? Complicado esse problema, não é?

Simples, porém, foi compreender que a teoria de vida daquele meu paciente era essa, que existe um jeito “certo” de voar, e que esse jeito era o do falcão. As borboletas que o perdoassem, mas um objetivo reto, fixo, final, uma “presa”, era fundamental.

Parece bobagem mas não é. Pelo menos para ele que, sem se dar conta do absurdo, sofria desesperadamente pelo filho e também, no fundo, por ele mesmo que não conseguia mais se soltar, voejar, esvoaçar, vaguear, andar a esmo, não fixar a atenção em nada, devanear, entressonhar, deixar enfim de voar sempre e apenas como um falcão e passar ao prazer extremamente complexo e proibido para ele, de borboletear pela vida.

Dr. José Roberto Campos de Oliveira

Médico pela Faculdade de Medicina da USP. Especialista em Psiquiatria pela AMB e ABP. Psicanalista pelo Inst. Sedes Sapientiae. Mestre em Ciências pela FMUSP.