Os instintos e as Pulsões

Os instintos e as Pulsões

Vamos aqui analisar a diferença que existe entre o que os especialistas chamam de pulsões e o que chamam de instintos.

Essa distinção foi estabelecida por Sigmund Freud, na sua teoria das pulsões em 1905.

Nela, as pulsões são postuladas como exclusividade dos seres humanos enquanto os animais têm apenas instintos.

O instinto é um comportamento animal, hereditário, quer dizer, passa de pai para filho, fixado, ocorre sempre da mesma forma em todos os indivíduos de uma espécie, pré-formado no seu desenvolvimento e adaptado ao seu objetivo. Os rituais de acasalamento, as migrações para desova, são exemplos de instintos animais.

Subjugados aos próprios desejos, subjugados às pulsões (como se conceitua em psicanálise a categoria dos desejos humanos para diferenciá-los dos instintos que originam os comportamentos dos animais), irmãs mutantes mais sofisticadas dos instintos, temos curiosidades variáveis, que se tornam fontes infindáveis de prazeres mas também de decepções. Gravitamos, por causa delas, em planos diferentes dos planos habitados pelos animais.

A pulsão, tem uma fonte, um estado de tensão interna; tem um alvo, um objetivo, que é acabar com a tensão em sua fonte, e tem um objeto que é aquilo que vai permitir à pulsão atingir seu alvo.

Pensemos, para exemplificar, no desejo de ter um filho. Ele pode ser o resultado de diversos outros desejos, que se organizaram nessa vontade resultante. É um desejo complexo, variável de pessoa para pessoa, aparece em momentos diferentes para cada um de nós, às vezes pode nem aparecer dessa forma, pode ser reprimido ou mesmo mudado em seu objeto (ter uma profissão por exemplo, em vez de ter um filho). É portanto, exemplo de uma pulsão, no caso dos seres humanos.

Os animais agem automaticamente, sem pensar, sem ponderar, sem comparar, ao sofrer o impacto instintivo; nós, seres humanos, submetidos às pulsões, somos levados a outras qualidades de ações e mobilizações. Podemos nos defender das pulsões, podemos reconhecê-las, podemos pensar nelas, podemos, até certo ponto inclusive, mudar sua direção e objeto. Pulsões, portanto, são mais maleáveis, podem ser razoavelmente reconhecidas, são mais nítidas, melhor desenhadas que os instintos, mais vivenciadas, podem até ser buriladas.

Assim, o ofício de querer ter e cuidar de um filho não é apenas instintivo para os humanos. Como tudo que fazemos decorre e é regido pelas pulsões, a sua realização proporciona a fruição de paradoxais prazeres, prazeres pulsionais, muito mais complexos que os proporcionados pelos instintos, porque, de forma diferente dos prazeres instintivos, os prazeres pulsionais não são apenas automáticos, não são fixos, não são exclusivamente genéticos, são forças internas que variam de pessoa para pessoa, proporcionam prazeres obtidos de complicadas negociações, em conseqüência de árduo aprendizado, reflexos de ajustes frente a dificuldades circunstanciais e conjunturais que são contra sua realização.

O processo de proporcionar o melhor desenvolvimento possível à prole tem a ver com a arte de engendrar combinações de pulsões inspiradoras, de forma a propiciar a eles novas experiências, potencialmente prazerosas. As combinações de desejos por eles desconhecidos, serão então mostradas em ação e oferecidas à degustação do principiante. Em seguida, a função dos pais é observar como se processa neles a aceitação das novidades e a escolha que fazem dos caminhos para a realização prazerosa possível, acompanhando seu esforço nesse sentido e ajudando-os a suplantar as eventuais dificuldades na tarefa.

Cada pessoa descobre como lidar com suas pulsões, encontra soluções para esses problemas fazendo coisas que têm a ver com o seu jeito específico de ser.

Quando Freud postulou o conceito de pulsão, no começo do século XX, em 1905, os avanços da ciência médica ainda não possibilitavam compreender como se processava organicamente o aparecimento dos desejos. Atualmente, conhece-se muito mais a respeito. As experimentações com ressonância magnética funcional, corroboraram a existência das pulsões, identificando os circuitos cerebrais neuronais, particularmente os circuitos do sistema límbico, relacionados com a recompensa.

Muitas drogas de abuso atuam nesses complexos sistemas cerebrais promovendo um curto-circuito de prazeres, como que originando pulsões autônomas que têm como objeto, neste caso fixo, justamente a droga de abuso, provocando então as adições às drogas.

É importantíssimo compreender esse detalhe para manejar as situações relacionadas com o abuso de drogas de forma adequada.

Dr. José Roberto Campos de Oliveira

Médico pela Faculdade de Medicina da USP. Especialista em Psiquiatria pela AMB e ABP. Psicanalista pelo Inst. Sedes Sapientiae. Mestre em Ciências pela FMUSP.

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