Viagens podem ajudar a prevenir transtornos mentais? Um workshop sobre isso.

Viagens podem ajudar a prevenir transtornos mentais? Um workshop sobre isso.

Não existe uma maneira “certa” de viajar. A escolha é de cada um. Minha proposta é explicitar minhas considerações sobre viagens de maneira a transformar essa genial forma de diversão em alguma coisa ainda maior, que poderá contribuir muito para seu bem-estar psicológico.

Viajar é uma das atividades que – nesse contexto de prevenção de transtornos psiquiátricos – estou chamando de “Higiene Mental” em contraposição às psicoterapias, porque ela não se refere estritamente ao reconhecimento e à busca de conflitos internos. É, no entanto, uma grande fonte de diversos tipos de prazeres, que têm a ver com nossa capacidade de fruir e de aprender, no sentido de identificarmo-nos com fatores externos que farão parte da nossa personalidade em um momento posterior. Nossa personalidade sempre sai enriquecida com viagens. Então, por que não aperfeiçoá-la ainda mais? Sim, porque quando bem efetuadas, planejadas, constituem uma excelente maneira de se estimular o funcionamento cerebral, pois as interações biopsicossociais do planejamento da viagem com a viagem propriamente dita, são muito complexas, fazem com que muitas áreas do nosso ser sejam colocadas em atividade.

Vou exemplificar com uma viagem a Paris porque se trata de uma viagem bastante diferente de outras, por vários motivos, a começar do seguinte: Paris é uma cidade com uma grande simbologia para muitas pessoas; está no imaginário popular de pessoas do mundo inteiro, como se sabe. Para nós, brasileiros, é uma viagem para um exterior não tão acessível como América do Sul, por exemplo; é uma viagem para um país de primeiro mundo, com uma língua diferente, com uma cultura diferente da que estamos acostumados, além de ser a realização de um desejo, um verdadeiro sonho de consumo para a maioria dos habitantes das metrópoles brasileiras. Esses aspectos fazem com que precisemos nos adaptar a diversas situações estranhas ao nosso ser, quer dizer, catalogar, articular e harmonizar diversos níveis cognoscitivos, afetivos e conativos para que ela se realize. Até a simples imaginação, a simples ideia de realizar essa viagem, já faz com que ocorra um início de estímulo de todas nossas capacidades psíquicas.

A viagem começa muitos meses antes, com pesquisa mais intensa sobre a cidade. A escolha de quais programas serão incluídos e como chegar aos locais, quais museus conhecer e visitar, quais parques, jardins, teatros, programas culturais, cafés, restaurantes, universidades, transportes públicos. Como vai ser o contato com os franceses, com os músicos de rua, com os malabaristas e patinadores, equilibristas que se exibem nas pontes do Sena… Aliás, como se divertem os parisienses? Valerá a pena estudar um pouco de francês? Estamos interessados em quê? Apenas nos aspectos físicos e culturais da cidade por um período curto ou estamos pensando em uma pós-graduação na Sorbonne?

Claro que se isso de um lado, já começa a nos estimular, constatamos de imediato outra coisa: talvez estejamos fazendo viagens sem pensar no que esperamos delas e sem lembrar que são uma excelente forma de prevenir doenças psicológicas.

Se só pensamos em “descansar”, em estar de férias, não acordar cedo, fazer só o que se está a fim, não trabalhar, apenas, nem precisamos fazer planejamento nenhum. Basta contratar uma agência de viagens que ela pensará por você e entregará seu roteiro estandardizado pronto.

Não estou dizendo que isso é errado, a grande maioria das pessoas viaja apenas com essa intenção. Mas, como este é um site de psiquiatria, não de turismo, quero lembra-los que – quando planejada – uma viagem pode ter ainda mais importância para a gente, pode ser muito mais estimulante e ficar em nossa memória por muito mais tempo e funcionar como um núcleo que agregue outras possibilidades de bem-estar.

Por outro lado, mesmo quando muito planejada, a realização do planejamento pode trazer, também, muitas surpresas porque nunca dá certo, totalmente, o que se planejou. Algum detalhe que não foi pensado se impõe, o lugar que escolhemos está em reforma, o café que esperávamos conhecer fechou, etc. Outras vezes, acontecem outras coisas para o lado “positivo”, por exemplo, o susto de constatar que ao vivo tudo é muito melhor do que imaginávamos.

Vou dar um exemplo deste último. Fui conhecer, na última vez em que estive na cidade, o Jardim de Luxemburgo. Já havia planejado conhece-lo, vi todas as atividades que se tem para fazer no lugar.

Pois bem, ao vivo e em cores ele é muito melhor do que nos livros. Certamente. Fotos dão apenas uma pálida ideia do ambiente.

Numa das alamedas do paradisíaco jardim, encontrei, sem querer, a espetacular Fontana de Medicis.

A história das estátuas do pequeno e complexo monumento, que estudei no local e depois, é esta: Polifemus, o gigante ciclope – de um olho só – apaixona-se pela maravilhosa Galateia que vivia na Sicilia, mas a ninfa rejeitou-o, preferindo um simples pastor, Ácis. Um dia Polifemus os surpreende juntos, perto do mar. Essa é a base da história. Coisas vão acontecer em seguida, a história vem da mitologia grega, porém, contada dessa maneira, só seu comecinho, a qualquer um, cairia no esquecimento de imediato. Acontece que a contaram para um grande escultor: o artista – Auguste Ottin – que, em 1864, criou as estátuas da Fontaine de Marie de Médici, representando a história até o ponto em que a contei. Vejam as fotos de uma das alamedas mais incríveis do Jardim de Luxemburgo e o filme que postei no Youtube sobre a fonte, com a sensação de paz que traz a água corrente. Tem gente que fica lá, curtindo a sensação, o dia inteiro. É realmente muito boa, repousante, inspiradora.

Mas o principal é o seguinte: que sentimento humano arrasador está inundando a alma do gitante Polifemus?

É disso que estou falando: de como coisas observadas numa viagem, planejada ou mesmo inesperadamente, contribuem para estimular o pensamento e a imaginação, além de originar sentimentos e atitudes sobre coisas muito relevantes a nós mesmos, um começo de insight, de compreensão interna dos nossos verdadeiros pensamentos e sentimentos a respeito de muitas coisas da vida. Isso protege, mapeia, esclarece, faz com que possamos elaborar melhor determinados conflitos internos que levam a transtornos mentais se não resolvidos de forma adequada. Não é tratamento, é higiene psicológica. Percebem a diferença?

Dr. José Roberto Campos de Oliveira

Médico pela Faculdade de Medicina da USP. Especialista em Psiquiatria pela AMB e ABP. Psicanalista pelo Inst. Sedes Sapientiae. Mestre em Ciências pela FMUSP.