Resiliência

Prezado Dr. José Roberto,

Li e apreciei o artigo “Covardia” escrito e publicado pelo senhor no site “SOS Psiquiatria”.

Tive uma paciente com as mesmas queixas acerca de sua profissão, o caso era o mesmo (inclusive nas queixas), no entanto, ela foi readaptada em outra função, pois estava esgotada e sem nenhuma condição de “encarar” uma sala de aula com alunos de perfil semelhante aos descritos pelo senhor no referido artigo.

Percebi que, muito embora ela tivesse se preparado para sua profissão nas melhores universidades, tendo cursado três cursos universitários em Faculdades Estaduais e Federais, com currículo exemplar, a paciente estava muito debilitada pela incompatibilidade entre seu investimento (intelectual e emocional) na carreira e o reconhecimento profissional.

Sua Diretoria, colegas, alunos e pais, enfim, o reconhecimento por seu trabalho era inexistente frente ao que ela esperava depois de estudar tanto e fazer de seu ofício a razão de sua vida.

Eu gostaria de pedir que o senhor escrevesse sobre os limites da resiliência diante da falta de reconhecimento, falta do olhar do outro, eco, vazio e solidão. Quando a automotivação já não basta para se manter em movimento produtivo, dando a impressão de cada minuto de nossa vida dedicado ao que não vê, parece nos violentar as emoções, expropriando de nós toda a energia de que necessitamos para prosseguir em bom nível de saúde mental e física…

Vou tentar responder a essa instigante questão, enviada por uma colega psicóloga, sobre meu artigo “Covardia” publicado neste mesmo site, lançando algumas idéias sem a preocupação inicial de alinhavá-las de forma sintética e totalmente coerente em um primeiro momento. Creio que essa espécie de “tempestade cerebral” possa trazer algum resultado útil apesar de tornar um pouco longo o texto. É que o tema, pela sua complexidade, demanda análises mais longas.

Vamos lá, então.

O sentido figurado da palavra “resiliência”, de acordo com o dicionário Houaiss, refere-se “à capacidade de se recobrar facilmente ou se adaptar à má sorte ou às mudanças”.

Foi nessa acepção que a Psicologia utilizou-se da palavra – emprestada da Física, que conceitua resiliência como “a propriedade que alguns corpos apresentam de retornar à forma original após terem sido submetidos a uma deformação elástica” – para analisar os meios utilizados pelas pessoas para superar acontecimentos traumáticos e continuar com seu processo de construção da personalidade.

A palavra, trazida pela colega psicóloga, remete, neste artigo, a uma professora que se encontra questionando sua maneira de exercer a profissão que escolheu e que está no limite de sua resistência às adversidades de sua prática, fazendo com que questione até mesmo se acertou em sua escolha profissional. Não está conseguindo superar um forte bloqueio no exercício profissional, sente-se frustrada na sua atividade.

Pois bem, a resiliência, nesse sentido, depende de um conjunto de processos psicológicos muito complexos: o funcionamento psíquico global com seus mecanismos de defesa e componentes pulsionais e a maneira peculiar como a totalidade das identificações feitas por determinada pessoa propiciou, para ela especificamente, a escolha e o exercício de uma profissão.

Escolhi como mote para pensamento e argumentação dessa questão, um pouco da biografia de duas personalidades muito criativas, gênios em suas atividades: Van Gogh e Greta Garbo. Vejamos como lidaram com questões que, pode-se dizer, guardam semelhanças entre si.

O primeiro, Van Gogh, suicidou-se aos 37 anos. A segunda, Greta Garbo, retirou-se do cinema aos 36 anos. Aquele, pobre, louco, gênio, esteve sozinho ou quase sozinho durante toda sua vida. Esta, rica, reconhecida como uma das maiores estrelas de cinema de todos os tempos, também genial, teve intensa vida social porém buscou a solidão em determinado momento; retirou-se da cena cinematográfica e do desvario social e foi viver sua vida de outra maneira. Morreu aos 85 anos, parece que razoavelmente feliz com a maneira como conduziu sua existência.

Aqui, um lembrete importante: a solidão, por si só, imposta ou conquistada, não é termômetro adequado para se medir o nível de satisfação pessoal ou a paz consigo mesmo.

Um resumo das biografias de ambos pode ser encontrado na Wikipédia, fonte da web que, nos dias de hoje, está mais do que simplesmente interessante:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Van_gogh

http://pt.wikipedia.org/wiki/Greta_Garbo

Sua leitura, faz pensar algumas coisas.

Por que uma pessoa “escolhe”, por exemplo, ser educadora? Ou médica? Ou atriz? O que faz com que alguém seja contador? Ou advogado? Ou pintor? Que desejos, que fantasias, que fugas, que arranjos estão por trás dessa decisão? Que fatores de natureza pessoal, psicológicos e sociais contribuíram para tal? Em quem o sujeito se mirou como exemplo? Por quanto tempo e com que intensidade a decisão tomada por essa pessoa, de exercer tal atividade, se manterá sem se desgastar? Como e até quando vai superar os entraves à realização de seus intentos?

Essas são algumas das perguntas possíveis.

Não existe uma resposta apenas que dê conta de todas elas. A escolha e o exercício profissional é o resultado conjuntural da interação de diversos fatores.

Se apenas um desses fatores, como por exemplo o fator econômico – quanto recebe ou receberá pelo seu trabalho, na profissão escolhida – fosse o fator dominante nessa complexa rede que vai determinar a escolha da profissão, quem saberia calcular quantos quadros mais deveria ter pintado Vincent Willem van Gogh para desistir de vez de sua pretensão artística? Isso chegaria a acontecer algum dia, já que morreu jovem, 37 anos, e, em toda sua vida, com abundante produtividade pictórica, vendeu um único quadro, O Vinhedo Vermelho, por 400 francos?

Ou, se esperasse o sucesso econômico exclusivamente, quanto tempo mais deveria esperar para mudar de ofício, já que o que estava fazendo não estava “dando certo”? Observe-se que como nunca deixou de pintar, provavelmente, mesmo se tivesse vivido mais, não abandonaria nunca tal ocupação porque estava como que “viciado” nela, (num bom sentido), focado absolutamente nessa atividade, não conseguindo em função dessa fixação, procurar outros modos para viver sua existência.

De alguma maneira, faz sentido também, pensar que ele morreu ainda jovem porque não agüentou o desprazer, a sensação de vazio, a falta de reconhecimento, a solidão, a penúria financeira. Enlouqueceu em função disso tudo e suicidou-se.

Não teve, afinal, a capacidade de resiliência, a capacidade de manter sua intenção inicial, superar os obstáculos, refazer-se, repensar-se, quando se deparou com fortes dificuldades que enfrentou para exercer sua paixão existencial. Não coneseguiu superar as ditas dificuldades. Pode-se inferir que sua morte talvez tenha sido causada, entre outras coisas, pela decepção com a profissão? Isso faz sentido para muita gente.

O que deveria ser um círculo virtuoso – fantasia frequente em todos nós – (a vida acaba por determinar a escolha da profissão que leva a um incremento na auto-estima que melhora a vida do sujeito, que por sua vez implica na melhora de seu exercício profissional e assim sucessivamente), no caso de Van Gogh não funcionou.

O círculo virtuoso se interrompeu no caso dele: a vida causou a escolha da profissão, que, não “dando certo”, minou a auto-estima, que causou a decepção com os outros e com a própria vida, que terminou provocando a morte do infeliz.

Pode-se concluir que caminhavam juntos no seu caso, o prazer, o entusiasmo de pintar e o reconhecimento sobre sua pintura?

O reconhecimento público interfere no prazer de fazer alguma coisa sempre, para todos os seres humanos? E o reconhecimento público é o aplauso ou o retorno econômico? Ambos? O que significa “dar certo na profissão”?

Resumindo: o que faço, como faço e porque faço alguma coisa, o porquê exerço uma profissão, depende da escolha que fiz, que foi baseada em um conjunto de fatores. A resposta social ao que tenho para oferecer, como contribuição à qualidade de vida dessa sociedade, o feedback que dela recebo, também vai contribuir para o aprimoramento do que faço ou, quem sabe, para a desistência de tal modo de vida, para o abandono do projeto inicial.

O quanto isso é verdadeiro, o quanto dependemos do feedback social é variável em cada um de nós.

Para transformar um potencial desenvolvimento trágico linear em círculo virtuoso, as forças determinantes das ações deverão ser intensas no sentido da realização pessoal com o que se está fazendo, a satisfação com o ideal estético, como também deverá ser grande a fonte econômica de subsistência que se tem para continuar bancando tal projeto de vida.

Se ambas são altas, se me considero um grande pintor, se estou satisfeito com o resultado estético do que faço, mesmo não havendo nenhuma repercussão imediata, mesmo não encontrando retorno de nenhuma espécie de outras pessoas com relação ao resultado da minha atividade, continuarei exercendo da mesma forma o ofício. Indefinidamente ou por quanto tempo eu achar que devo continuar.

Agora, se uma depende da outra, se a aceitação do meu projeto pela sociedade, se o que recebo ao executá-lo for necessário para sua continuação e isso não está ocorrendo, fica evidente que o projeto deverá ser revisto. Ou que os meios que estou utilizando para sua realização deverão ser repensados.

Passemos ao outro exemplo: em um determinado momento de sua carreira, Greta Garbo sumiu. Que circunstâncias contribuíram para isso? Quais delas vinham dos estúdios? Quais vinham dela mesma? As questões econômicas eram, no caso dela, primordiais?

Se eram, por que, agora pensando o contrário dos parágrafos anteriores sobre Van Gogh, determinadas pessoas “bem-sucedidas” – no julgamento da determinada tribo que as admira – param de fazer alguma coisa que estava sendo tão aceita e lhes trazia dividendos econômicos e outros tipos de retorno excelentes?

Pois é, mistérios. Greta Garbo era, antes de tudo, uma mulher absolutamente misteriosa. Como todos nós, aliás. Conclui-se que não existe apenas um foco único nessas decisões de vida.

Lendo biografias, analisando os diversos matizes do conjunto de fatos e percepções que aparentemente mobilizaram determinadas atitudes do biografado, pode-se responder, pelo menos individualmente a algumas dessas questões. Cada um de nós vai chegar à própria conclusão. Não sem controvérsia, mesmo interna, porque, como já foi dito, não existem respostas únicas e definitivas para essas questões.

Voltando ao tema, tenho a dizer que minha opinião a respeito, minha contribuição mais superficial, mais imediata ao assunto, é que um professor tem que olhar para um aluno com olhos de solucionar problemas. Da mesma forma que um médico olha para alguém que julga necessitar de seus serviços.

O indivíduo saudável ou com alguma doença simples, curável, necessita pouco do médico. O bom aluno necessita pouco do professor.

Ambos, o indivíduo quase saudável e o bom aluno, vão seguir seu caminho, independentemente do médico que o consultou ou do professor que o ensinou.

Estes, todavia, tendem a amá-los mais do que deviam. O bom aluno e o sujeito quase saudável não precisam do amor do professor e do médico respectivamente. O mau aluno e o doente grave, sim. Mas quem há de querer determinar as escolhas do amor, não é mesmo? Os que mais dele precisam não o têm. Não é meio que uma regra geral, isso? Quem não passou por isso?

Existem professores que nutrem um grande orgulho pelo seu brilhante aluno porque imaginam que o resultado atingido por ele dependeu de seu trabalho assim como existem médicos que gostam muito dos “bons” pacientes porque os resultados por eles apresentados decorreram do fato de terem feito tudo direitinho o que lhes foi por eles recomendados. Existem, nesses casos, os feedbacks positivos evidentes trazidos pelos “bons” sujeitos.

Agora, sabemos que na verdade quem precisa mesmo de professor é o mau aluno.
A vitória real, o verdadeiro feedback positivo ocorreria se alguém, se algum brilhante professor, conseguisse transformá-lo num bom aluno.

Tem-se então que o grande, o enorme desafio de todo mestre, é este: inspirar seus alunos, ajudá-los em suas transformações. Recuperá-los. Propiciar-lhes uma nova dimensão da vida. Se isso não está acontecendo, o mestre precisa se rever ou rever seus métodos ou os procedimentos ditados pelo estilo de ensinar que escolheu, lembrando que isso, por sua vez, deveria lhe ter sido ensinado no básico de sua formação porque faz parte do seu contexto profissional.

A função do educador é fazer com que seus alunos se apropriem de determinados conteúdos e consigam exercer crítica sobre o que aprenderam levando adiante o bastão do conhecimento.

Para isso terá que acolhê-los, vivenciar as situações do dia-a-dia com eles, oferecer aos alunos coisas que nunca vivenciaram com ninguém, nem mesmo com o pai ou mãe que, tecnicamente, teoricamente, deveriam ser os provedores dessas experiências fundamentais da vida.

Todas as profissões, em suas dimensões teórica e prática, assentam-se em diversos saberes.

A medicina por exemplo, em sua dimensão teórica é sustentada pelo estudo da anatomia, da farmacologia, da histologia, da bioquímica, da fisiologia, e de muitas outras ciências que amparam e articulam o saber médico global.

O índice de desistência da profissão médica, para quem chegou ao diploma, é dos mais baixos de todas as outras profissões. Talvez porque, frente ao descontentamento com os resultados conseguidos no exercício global de determinada especialidade, por exemplo, no exercício da clínica, o profissional opte por desenvolver-se em outra direção e exercer uma das outras áreas, sem abandonar a Medicina.

Se não gostei de ser cirurgião, posso tentar ser cardiologista, bioquímico ou me dedicar à epidemiologia, por exemplo, atividades muito diferentes entre si. As opções são muitas, dentro da área médica.

Por outro lado, posso, também, sair da área médica; ninguém me obriga a permanecer nela só porque investi tanto tempo no aprimoramento de seu exercício. Juscelino Kubitscheck era médico. E foi um dos melhores presidentes do Brasil. E talvez por isso mesmo.

Acredito que há que se pensar numa profissão como uma área específica que será o centro das atenções do sujeito que a escolheu, por um tempo de sua vida. Como o conhecimento humano é todo articulado, se você não gostar mesmo do que está acontecendo na sua vida profissional, sempre há a possibilidade de mudar para outro ramo, usando inclusive tudo o que sabe, tudo o que já aprendeu no atual ramo, como diferencial no exercício da nova função.

Exercer, por exemplo, o ofício de vendas, vender coisas, objetos, imóveis, carros ou até mesmo idéias, tendo tido experiência no magistério é uma coisa. Para quem não teve tal experiência a atividade é totalmente diferente.

Enfim, mude para sobreviver se não está tendo o sucesso por você esperado qualquer que seja o significado dessa palavra para você. O que você fez até hoje será certamente utilizado, de uma forma ou de outra, na sua nova atividade.

Por último, é preciso lembrar que existem diversas maneiras de se exercer determinada especialidade, digamos assim, um estilo, geralmente inaugurado e mantido por alguém que se diferenciou no domínio específico por algum motivo, um expoente que conduz ou conduziu sua “escola”, que acaba sendo a referência, o núcleo orbitado por partidários que compartilham aquela maneira específica de exercer o determinado ofício. Identificaram-se com ele. A interlocução entre os pares é quase sempre possível dentro de cada um desses estilos.

Pode-se, em outras palavras, mudar de turma dentro da profissão.

A psicanálise é um bom exemplo disso.

Existem os psicanalistas freudianos, os bionianos, os kleinianos, os lacanianos, os winnicottianos e outros, “turmas” que nem sempre convivem harmoniosamente, apesar de serem todos psicanalistas.

Quantas linhas de trabalho e de estudo existem na área da educação? Pois é. Mude para outra. Mude de turma, mude de enfoque, saia do serviço público e migre para o particular ou vice-versa. Ou, construa sua própria escola.

As dificuldades que aparecem na prática profissional, são dificuldades que surgem sempre que alguém se propõe a contribuir de alguma maneira com funções de auxílio dirigidas a outrem, de maneira nova ou mesmo de uma maneira que já se encontra mapeada mas nem tanto.

São as vicissitudes de seguir um caminho não totalmente conhecido.

Se você não se contenta com determinada linha de trabalho, com uma “escola” que satisfaça a maioria dos seus desejos e seja balizadora de sua atividade profissional e não consegue mudar o que o descontenta porque a “turma” instalada no poder na atualidade, na linha em que você está, não deixa, mude de linha ou invente outra, invente a sua maneira de exercer seu ofício, o ofício que faz sentido para você.

Isso é eticamente possível sempre.

Artigo do Dr. José Roberto Campos de Oliveira.

Obs: Existem conceitos que ainda estão em fase de melhor elaboração, que talvez se mostrem, com o tempo, mais adequados para se analisar o tema. A dita “síndrome de burnout”, que acomete pessoas de áreas que cuidam da saúde e educação principalmente, parece-me interessante nessa perspectiva. (Por enquanto, Z73.0 na CID-10).

Dr. José Roberto Campos de Oliveira

Médico pela Faculdade de Medicina da USP. Especialista em Psiquiatria pela AMB e ABP. Psicanalista pelo Inst. Sedes Sapientiae. Mestre em Ciências pela FMUSP.