Você é normal?

Você é normal?

Outro dia, passei por um casal, na rua, ouvi a moça reclamando pro rapaz: “deixa de ser neurótico, sô!”

Eu estava de passagem, não ouvi a resposta nem o motivo da irritação dela. Mas fiquei pensando naquilo, engraçado esse costume de manifestar descontentamento, depreciar alguém, utilizando-se de uma doença, não é? Ela poderia tê-lo insultado de outro modo, escolheu no entanto uma doença, como se uma doença fosse uma espécie de defeito que a pessoa carrega porque quer, como se fosse de propósito que apresenta alguma dificuldade, enfim, como se o sujeito tivesse culpa por agir diferente do desejo dela, ou mesmo ao contrário do que a maioria das pessoas agiria. Seria o mesmo que xingar alguém que o desagradou de alguma maneira: “deixa de ser diabético, sô!”, ou “deixa de ser cardiopata!”.

Ela estava querendo dizer, claro, que achava doentio algum comportamento ou comentário dele. Mas, o que é mesmo ser normal? Será que é tão fácil assim definir isso? Todo mundo precisa de explicações detalhadas de tudo. Precisamos definir o que é ser doente mas também pensar um pouco no que é ser “normal”. Talvez o que a moça considerou “neurótico”, seja apenas uma variação de um comportamento normal.

Quando eu era adolescente, gostava muito daquela brincadeira que geralmente meninas iniciavam, vinham mostrar prá gente e pedir nossa contribuição (dos meninos). Escritas nos seus cadernos, essas tentativas de definição do amor, sempre começavam assim: “Amar é….”. Vinha então uma listinha comprida, com a opinião e frases de autores conhecidos e de colegas. Lembro-me que algumas definições provocavam reações de riso na molecada que achava aquilo muito piegas. “Amar é ser eternamente responsável por quem se ama” (Saint-Exupéry – O pequeno príncipe). Quá, quá, quá, respondia a molecada, uns insensíveis. Aí vinha o xingamento das meninas, certeiro, preciso: “deixa de ser besta, sô!”

Em homenagem àquelas meninas, venho agora repetir a velha brincadeira, utilizando a opinião de diversos autores, com um “Ser normal, é:

Ter capacidade de lidar com conflitos emocionais, ser capaz de sentir prazer, ser capaz de amar e ser amado;

Ser capaz de viver, durante a maior parte do tempo, sem medo, culpa ou ansiedade e assumir a responsabilidade pelas próprias ações;

Ser capaz de conseguir um desenvolvimento da personalidade com um funcionamento adulto e maduro; significa ser capaz de experimentar afetos flexíveis e resolver conflitos ativamente com sucesso razoável;

Não ter transtornos físicos severos, não ter doença mental severa, quase não ter psicopatologia nenhuma a maior parte do tempo; (esquisita essa, ser normal é não ser doente!)

Ter relacionamentos relativamente bons com os pais, irmãos e grupos de iguais;

Ter um sentimento de fazer parte de um ambiente cultural mais amplo e ter consciência de suas normas e valores;

Ter capacidade de se ajustar ao mundo externo com satisfação e ser produtivo;

Ter superado empecilhos evolutivos, nas diversas fases da vida, de forma satisfatória.

É lógico que essa listinha é muito mais ampla, como também era aquela do ”amar é”. Sempre alguém tem alguma coisa contra, uma ressalva, ou alguma coisa a acrescentar a uma lista desse tipo.

Sem pretender esgotar nem restringir o assunto, me parece que a idéia de que ser normal é conseguir ter um processo de desenvolvimento psicossocial otimizado, com progressiva conquista de um funcionamento maduro da personalidade, é muito útil.

Dr. José Roberto Campos de Oliveira

Médico pela Faculdade de Medicina da USP. Especialista em Psiquiatria pela AMB e ABP. Psicanalista pelo Inst. Sedes Sapientiae. Mestre em Ciências pela FMUSP.